Verdade e Liberdade

Verdade e Liberdade

Edição da autora
1950

Mais que um livro, um panfleto de propaganda política. Patrícia Galvão voltava à militância política, concorrendo à Assembléia Legislativa pelo Partido Socialista Brasileiro. É um texto candente, denunciando o totalitarismo comunista e fascista, apontando o socialismo democrático como o caminho possível para a busca da justiça social. No texto intenso, Pagu expõe momentos da sua vida, como testemunho do que a levou ao socialismo.

“(…) Agora, numa noite de julho de 1940, soltavam-me. Fiquei mais alguns meses além do que me condenara o Tribunal de Segurança. Eu não prestara homenagem ao Interventor Federal em visita à Casa de Detenção. Um Adhemar de Barros.

Antes daquela noite, há mais de dez anos, portanto, eu me desligara para sempre daquela gente. Expulsara finalmente de minha vida o Partido Comunista. Finalmente se acabara minha vida política.

Ao regressar àquela noite ao albergue paterno não podia me recusar a olhar para trás. Outros dez anos se haviam passado desde a primeira prisão… Dos vinte aos trinta anos, eu tinha obedecido às ordens do Partido. Assinara as declarações que me haviam entregue, para assinar sem ler. (…) Então, quando recuperei a liberdade, o partido me condenou: fizeram-me assinar um documento no qual se eximia o Partido de toda a responsabilidade. Aquilo tudo, o conflito e o sangue derramado, fora obra de uma “provocadora”, de uma “agitadora individual, sensacionalista e inexperiente”. Assinei. Assinei, de olhos fechados, surda ao desabamento que se processava dentro de mim.

Por que não?

O Partido ‘tinha razão’.

De degrau em degrau desci a escada das degradações, porque o Partido precisava de quem não tivesse um escrúpulo, de quem não tivesse personalidade, de quem não discutisse. Reduziram-me ao trapo que partiu um dia para longe, para o Pacífico, para o Japão, e para a China, pois o Partido se cansara de mim gato e sapato. Não podia mais me empregar em nada: estava “pintada” demais.

Mas, não haviam conseguido destruir a personalidade que transitoriamente submeteram. E o ideal ruiu, na Rússia, diante da infância miserável das sarjetas, os pés descalços e os olhos agudos de fome. Em Moscou, um grande hotel de luxo para os altos burocratas, os turistas do comunismo, para os estrangeiros ricos. Na rua, as crianças mortas de fome: era o regime comunista.”

Sua militância no PSB é breve, acabando depois da derrota nas eleições. Contudo, passa a defender um socialismo utópico, pacífico e libertário:

“O fim é a libertação do homem desde as suas bases de pão e de abrigo, de amor e de sonho, de aspiração e criação, até que se transformem as relações de semelhante a semelhante, e se estabeleça em toda a plenitude a dignidade de uma paz e de uma solidariedade contritamente vividas.”

Trecho do texto Verdade e Liberdade extraído das páginas 215 e 216 do livro Viva Pagu – Fotobiografia de Patrícia Galvão, de Lúcia Maria Teixeira e Geraldo Galvão Ferraz.