Para Augusto, o protótipo da nova mulher
Entrevista com Augusto de Campos, em A Tribuna

 

"A Tribuna" - Como você situaria a importância de Patrícia Galvão na cultura nacional, em especial no Modernismo?

Augusto de Campos - Em primeiro lugar, para bem situar a contribuição de Pagu, é preciso relembrar que ela não participou da primeira fase do Modernismo. Tinha apenas 11 anos quando ocorreu a Semana de 22. Ela intervém na segunda fase - a da Antropofagia, em 1929. E, dentro da Antropofagia, na chamada 2ª dentição, ou seja, na ala mais radical desse desdobramento do Modernismo, a liderada por Oswald de Andrade, Oswaldo Costa e Geraldo Ferraz, que pretendiam fazer a crítica interna do primeiro Modernismo, afastá-lo das recaídas academizantes, do nacionalismo conservador e da repressão espiritualista.

Sob a inspiração de Freud e de Mrax, queria instaurar-se uma nova cultura e até uma nova sociedade, emblematizada na figura do selvagem, nu, desrecalcado e livre. Dentre modernistas velhos e novos, os antropófagos da 2ª dentição foram devorando, em seus polêmicos moquéns, todos quantos lhes pareciam falhar ao novo ideário: Menotti e Guilherme (por academicismo); Cassiano Ricardo e Plínio Salgado (pelo nacionalismo reacionário); Tristão de Ataíde e Mário de Andrade (por carolice), tendo antes, desapropriado Macunaíma por sua notória vis anthropophagica, etc., etc.

Se dentre os próprios escritores da primeira safra modernista era difícil achar quem satisfizesse ao radicalismo antropofágico, imagine-se a raridade que seria encontrar uma mulher, inspiradora ou ativista, que assumisse a bandeira de luta do movimento. Pois a Antropofagia encontrou, e não apenas uma: Tarsila e Pagu. A grande pintora, então casada com Oswald, foi, de fato, a musa-matriz da nova insurreição, com o seu quadro Abaporu (O Antropófago).

Mas a bela e doce Tarsila, a "caipirinha vestida de Poiret" - como a retratou Oswald - não tinha a braveza e o ímpeto belicoso que a proposta requeria e que já despontavam em Patrícia, sua discípula e admiradora. Com apenas 19 anos, preparada por Oswald e Tarsila, a garota Pagu sobe no palco do Municipal para escandalizar, declamando poemas modernistas, e consegue calar a vaia dos estudantes da Faculdade de Direito. E, ainda sob a influência de Oswald-Tarsila, escreve e ilustra o desabusado Álbum de Pagu. É então que ela começa a encarnar a mulher revolucionária da Utopia Antropofágica.

Mas a fase heróica da Antropofagia duraria pouco. A página do Diário de Sâo Paulo, em que os antropófagos montaram o seu arraial - o "órgão da antropofagia brasileira de letras" - foi encerrada, após cinco meses de vida e 16 números, em 1º de agosto de 1929, por pressão dos leitores do jornal. Ao fim de tudo, entre perdas e danos, Pagu desaloja Tarsila da visão e da vida de Oswald.

Da radicalização cultural da Antropofagia passam eles, após a crise econômica de 29, à radicalização política. Pagu produziria, então, o seu romance proletário, Parque Industrial (1933), tendo passado pela aventura das intervenções polêmicas, pré-feministas, e das charges políticas da Mulher do Povo (1931). Depois, a viagem pelo mundo, as lutas de rua em Paris, a prisão por mais de quatro anos, em 1935, e o difícil retorno, em 1941, salva para a vida por um outro ex-antropófago, Geraldo Ferraz.

Com ele escreveria, a duas mãos, o romance A Famosa Revista (1945) e se empenharia numa infatigável e estilhaçada atividade cultural de informação e de luta em favor das vanguardas literárias, colaborando em diversos jornais e, por fim, nesta A Tribuna. Com um dossier tão revolucionário (aqui, drasticamente resumido), eu diria que Pagu era a figura de mulher que faltava ao ritmo de renovação do nosso Modernismo. Sob muitos aspectos, uma precursora da mulher de hoje, o que talvez explique o seu fascínio e o seu carisma para as novas gerações.

"A Tribuna" - Ela teve importância, então, por sua obra própria, pessoal, ou se situaria melhor como musa antropófaga, inspiradora do movimento?

Augusto - Se se pensa em obra, como a estruturação perfeita e acabada de um trabalho artístico ou literário, Patrícia Galvão não terá deixado obras imperecíveis, mas quase-obras, esboços, fragmentos, projetos de obras. Tirando Oswald, porém, poucos dentre os modernistas da primeira ou da segunda fase personificam tão completamente a imagem rebelionária desse movimento. Por isso mesmo, mais do que "musa" ou "inspiradora", ela parece configurar o protótipo da mulher nova que emerge da visão transformadora do Modernismo, em seu sentido mais autêntico. Mulher de dois "antropófagos", Oswald e Geraldo, até na vida pessoal ela parece ter sido basicamente fiel ao projeto de renovação em que se engajou desde os 18 anos. Por isso mesmo, ante a dificuldade, aqui, de separar vida e obra, eu preferi definir a sua participação e sua "presença" por uma palavra composta: VIDA-OBRA.

"A Tribuna" - Por que você se interessa tanto por Patrícia e sua obra, a ponto de pesquisar e publicar vários trabalhos, e inclusive o recente Pagu: Vida-Obra?

Augusto - Sempre me interessaram os escritores e artistas que estiveram adiante do seu tempo e que por isso mesmo arrostaram, quase sempre, com a incompreensão. Nesse sentido, participei da redescoberta de importantes autores nossos, que se encontravam marginalizados, como é o caso do poeta maranhense Joaquim de Sousândrade, "o antropófago do Romantismo", sobre o qual escrevi, com Haroldo de Campos, o livro ReVisão de Sousândrade (1964), reeditado este ano; é este também o caso do poeta simbolista baiano Pedro Kilkerry, ao qual dediquei ReVisão de Kilkerry (1970). Pagu: Vida-Obra é, a meu ver, mais uma reVisão necessária.

Meu interesse por Patrícia foi despertado pelo interesse por Oswald de Andrade, de cuja reavaliação Haroldo de Campos e Décio Pignatari, meus companheiros de luta literária, participaram decisivamente. Mas entrou aí também o acaso. Em 1952 eu publiquei um poema (O Sol Por Natural), inspirado num outro poema, Natureza Morta, que saíra no Diário de São Paulo em 1948, com a assinatura de Solange Sohl. Depois da morte de Patrícia, em 1963, o poema chegou às mãos de Geraldo Ferraz, que então revelou ser aquele um pseudônimo de Patrícia Galvão.

Desde essa época, comecei a juntar os pedaços do quebra-cabeças que era a vida-obra de Patrícia. A dificuldade de conseguir informações sobre ela retardou o projeto do livro ao longo dos anos, mas as novas e surpreeendentes descobertas que foram surgindo, especialmente a do Álbum de Pagu, acabaram me animando a concluí-lo. Há pouco, remexendo em meus recortes de jornais, deparei com um artigo de Geraldo Ferraz, publicado em A Tribuna, em 28 de maio de 1963, no qual ele comenta as traduções de Joyce, por mim e por Haroldo de Campos, no Panorama do Finnegans Wake. No parágrafo final, relembra que "a primeira tentativa de tradução de Joyce foi feita sobre algumas páginas de Ulysses, em 1949, por Patrícia Galvão". E conclui: "Como andaram perto sempre Patrícia, Augusto e Haroldo de Campos, tento aqui fazer com que se dêem as mãos, agora em torno de Joyce, rememorado pela tradução do Panorama. Quem sabe a observação de Geraldo não responde ou completa a resposta à sua pergunta?



"A Tribuna" - O seu livro está alcançando o objetivo de tirar da sombra a figura de Pagu?

Augusto - Espero que sim. Para minha surpresa, o livro, lançado em junho, já está em segunda edição. Agrada-me pensar que, ao trazer Pagu novamente à tona, eu não tenha caído na mera mitificação. Procuro traçar o percurso acidentado de uma mulher que não foi apenas personagem de uma aventura, mas uma "escritora de aventura", a experimentar e a pesquisar seriamente. Alguém que, por anos a fio, se propôs defender e divulgar a mais difícil e a mais contestada das atividades literárias, a dos escritores de vanguarda, com os quais cerrou fileiras, desde a época em que ela mesma surgiu para a literatura e para arte como "o anúncio luminoso da Antropofagia".