Parque Industrial na Quinzaine Littéraire

Um dos mais prestigiosos jornais sobre cultura da França, o Quinzaine Littéraire, publicou um artigo de Odile Hunolt sobre o Parque Industrial, principal obra literária da Patrícia Galvão. A publicação ocorreu em 2015, foi realizada pela editora Le Temps des Cerises e merece bastante destaque pela própria importância da Quinzaine Littéraire na França, à qual acederam pouquíssimos escritores brasileiros.

Na imagem o artigo em francês e, mais abaixo, a tradução para o português das principais ideias apontadas no artigo.

Apresentado e com que desenvoltura por um prólogo de Liliane Giraudon e o longo posfácio do tradutor Antoine Chareyre, Parque Industrial é um curto romance publicado em fins de 1932 no Brasil sob o pseudônimo de Mara Lobo. Mara Lobo é Pagu . Pagu é Patricia Galvão.

Nos trechos traduzidos da resenha que se segue, Odile Hunolt comenta:

O romance nos reserva quatro choques sucessivos, o primeiro é uma capa construtivista, inspirada na capa agressiva, magnífica ,publicada no Brasil em 1932. O segundo choque é o próprio prefácio de Liliane Giraudon,esplêndida exposição biográfica da autora. O terceiro choque são as duas epigrafes, violentamente contrastantes, das quais transcrevemos a segunda:

” a estatística e a história da camada humana que sustenta o Parque Industrial de São Paulo e que fala a língua desse livro, se encontram, sob o regime capitalista nas prisões, nos barracos operários, nos hospitais e nas morgues”.

Tudo isso foi dito, mas o quarto choque e o não menos importante é o texto vivo como um jogo de ping-pong que esculpe em pequenos capítulos cujos títulos parecem chicotadas as esperanças e desesperos de meia dúzia de operários têxteis.

É um texto sincopado, elíptico, brilhante que, pontuado de slogans frontalmente marxistas mostra uma língua que não se fala mais, aqui usada com um frescor surpreendente, que desempenha um papel importante inclusive esteticamente nesse romance.

Pagu joga com todos os elementos de uma dinâmica que oscila entre a sutileza e a caricatura , esses dois contrários bastante trabalhados. Ela nos lança apressadamente de um setor ao outro da luta de classe, dos operários com seus barracos aos hotéis elegantes, em uma sequência viva como o mercúrio .
Alguns meses após a publicação do livro, um critico escreveu “ parece que para a autora o objetivo da revolução é o de resolver a questão sexual”.

Mas o que Patricia Galvão realmente faz é sublinhar em fortes traços negros as estruturas econômicas do Brasil no começo dos anos 930 e, numa forma mais fina, mostrar as relações humanas tal como são pervertidas social, econômica e intelectualmente pelo capitalismo, quer dizer, mostra a degradação que as relações de classes trazem para as relações humanas.

No romance, os indivíduos se cruzam, se misturam, cada qual com seus projetos, suas ideias por alguns momentos, a duração de um carnaval ou de uma relação amorosa, mas, como a água e o óleo, nunca se fundem.

Patricia Galvão varre as aparas do ego: a tensão de sua reflexão e sua temperatura conseguem ultrapassar o narcisismo de uma jovem super dotada, bonita, arrogante, fascinante. Sobram um pensamento e uma arte; quer dizer: uma obra de arte.

Dito tudo isso, é bom deixar o futuro aberto, porque Pagu tornou-se uma lenda!


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