FLIP – Feira Literária Internacional de Paraty, começa hoje

Semana da realização da Flip – Feira Literária Internacional, em Paraty e diante desse momento pensamos nos grandes nomes da literatura nacional, entre eles o de Patricia Galvão, a Pagu.

Em 2010, a escritora Lúcia Maria Teixeira falou sobre Pagu na programação oficial desta Feira Literária Internacional, ressaltando a sua vida e obra, com apresentações multimidia. O livro Viva Pagu, de autoria de Lúcia e Geraldo Galvão Ferraz, que homenageia os 100 anos de Pagu, indicado ao Prêmio Jabuti, foi também destaque na programação da Flip.

Lúcia celebrou a Pagu escritora, jornalista, mulher precursora e ativista cultural e política, ressaltando que:

“Nunca foram tão necessários seus sonhos de mundos imaginados que nos abrem caminhos, nos movem, dando razões para desejar e buscar realidades melhores que as atuais.

Ela ainda tem muito a nos dizer. Uma fala que busca raízes no terreno incerto e perigoso dos atos, das práticas, da existência, sempre como síntese imperfeita. E, assim, nos faz companhia na luta, crença, valores, paixão, desejo e emoção.

A história continua, portanto, aberta a novas propostas e ao fazer junto, em seu não acabamento essencial. Nossa antropófaga, um ser-em-mutação, mutação-em-ser, venceu a morte, ou melhor, deglutiu-a. Conquistou a sobrevida por meio de seus sonhos, ideias, afetividade e desejos, que são, afinal, o que nos dá condições de existência. “É a vida que flui, a arte que permanece, e entre o que passa e o que fica, os homens traçam a sua grandeza e a sua dignidade” – Lucia Teixeira.

Hoje trataremos o texto mais famoso de Pagu – PARQUE INDUSTRIAL.

Publicado em 1933, quando Patrícia Galvão, contava com apenas 23 anos de idade. Esse texto foi lançado, por injunção do Partido Comunista Brasileiro no qual a autora militava sob o pseudônimo de MARA LOBO.

Motivo: o Partido a julgava muito intelectual por essa atividade de escritora e, naquela época, só eram valorizadas nesse partido as atividades braçais. Essa edição limitada foi paga por Oswald de Andrade, com quem Pagu era então casada.

Em 1981, a editora Alternativa lança uma edição fac-similar do texto, embora alterando a capa, que originalmente era de Lívio Abramo e nesta edição é de Cláudio Rocha. A edição tem prefácio de Geraldo Galvão Ferraz, o filho de Pagu com o escritor, jornalista, crítico de artes plásticas, urbanismo e arquitetura, Geraldo Ferraz, e finalmente ganha o verdadeiro nome de sua autora – Patricia Galvão – Pagu. É então a vez desse texto, preocupado com a classe proletária brasileira, aqui mostrada através das tecelãs das fábricas do Brás, onde Pagu morou em certa época, deixando de lado a família aristocrática, deixa de ser comunista para se provar universalmente humano.

Em 1993, numa impressão da University of Nebrasca , em tradução de Elizabeth e David Kenneth Jackson, Pagu mais uma vez rompe fronteiras. Parque Industrial – o Primeiro Romance Proletário Brasileiro – ganha o mundo e aterriza nos Estados Unidos da América pelas mãos dos professores doutores Elizabeth e K. David Jackson, estudiosos da literatura brasileira.

 

 

 

Anos depois, em 2013, ainda uma vez era hora do Brasil homenagear essa escritora, feminista avant la lettre, jornalista, tradutora, apaixonada pela literatura e o teatro, que traduziu e trouxe para o Brasil autores de toda Europa e aqui descobriu profissionais da estatura de Plínio Marcos. E, finalmente a escritora, sempre preocupada com o humano, que escreveu o primeiro romance proletário brasileiro, viu definitivamente reunidos seu nome e a capa original de sua obra, em um desenho realizado por Lívio Abramo. Pagu não poderia ser esquecida, então a editora Cintra publica na versão digital, em e-book, o Parque Industrial.

Porém, Pagu, com sua preocupação humanitária e feminista, com seu texto precioso, não se prende a territórios e, uma vez transposta a fronteira das Américas com seu voo para os Estados Unidos, seu PARQUE INDUSTRIAL, o primeiro romance proletário, no mesmo ano de 2013, ganha a Europa em tradução de Elena Bulic, desta vez aterrizando na Croácia. O povo croata, tão sofrido, recebe o livro como um presente dessa tradutora, uma estudiosa brasilianista que descobriu o livro em uma feira literária na Itália.

Assim, rompendo fronteiras entre intelectuais e um povo sofrido e sem voz, Pagu segue sua trajetória humanitária e literária e, ainda em 2013, o PARQUE INDUSTRIAL ganha sua edição em e-book, em espanhol, pela editora Cintra, em tradução do professor Dr. Martim Camps, brasilialista, autor/tradutor mexicano que trabalha na Universidade de Houston, e acreditou nessa obra de Pagu por conhecer as nefastas condições de trabalho das tecelãs no norte de seu país, o México. Posteriormente, o professor Martim Camps lança, em uma edição do próprio tradutor, esse texto em versão impressa.

Finalmente, em 2015, o Parque Industrial de Pagu volta à Europa pelas mãos do tradutor Antoine Chareyre e é publicada pela editora Le Temps des Cerises, com prólogo de Liliane Giraudon e boa aceitação naquele país, que dedica vários artigos elogiosos ao texto. Ignorante dos problemas dos tecelões brasileiros na época da industrialização, mesmo assim, a França reconhece a qualidade do texto de Pagu e o aplaude.  Para o próximo ano de 2019 está contratada a publicação de Paixão Pagu- autobiografia precoce de Pagu, pela mesma editora e o mesmo tradutor.

 

No início de 2018, a editora Linha a Linha, que “nasceu das inquietações com o mundo e com o objeto-livro”, como dizem seus editores, reconhece, abriga e publica o PARQUE INDUSTRIAL dessa Pagu inquieta com o mundo, com os livros, inquieta com a humanidade! Nessa publicação temos uma versão criteriosa, com prefácio de Augusto de Campos autor, entre outros livros, de Pagu-Vida-Obra, em primeira edição pela editora Brasiliense e em segunda edição de 2014 pela Companhia das Letras, e artigos-estudos de Kenneth David Jackson (A Dialética Negativa de Parque Industrial) o tradutor dessa obra para o inglês, como já apontado e notas explicativas, necessárias tantos anos passados da primeira publicação, assim como artigos críticos de Antoine Chareyre – tradutor da obra para o francês. O lançamento do Parque Industrial em português, dessa vez se deu no espaço Tapera Taperá, que fica na Galeria Metrópole em São Paulo e contou com a fala de estudiosos de Pagu, numa simpática reunião.

 


Comentários desabilitados.