Crônica Não tenha Medo do Escuro de Patrícia Galvão – Pagu

A crônica Não tenha Medo do Escuro, é uma carta de amor ao filho Rudá, que marca o encontro de ambos, após muitos anos separados.

      Vão aqui os dedos ao encontro da parede, dos cabelos amados, do sorriso que não vejo, ó lua negra na noite destrelada, passos que vêm agora, que vão, palavras em língua estranha me servem chá preto, pão preto, arroz preto, verduras pretas. E a noite noturna vagando este coração todo escaninho aberto às brisas punhais da lembrança, do azul, do amarelo, do branco, daquela rede trançada, os quadros muito amados, a paisagem, a velha parede, as folhas. Nenhuma lágrima a não ser este amargo canto negro que sobe na noite e vem servir de berceuse, sentimento abstrato de que me sirvo para me lembrar muitas vezes de meus olhos…

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Quereria lhe escrever Rudá nestas linhas a minha carta de amor da noite em que estamos perdidamente clandestinos no barco imenso que bóia sobre as águas do mundo tomado de dilúvio. Rios correm pelos sulcos de todos os países, bichinhos humanos pequeninos sem mãos adultas puxando seus passos infantes, e nós com a obrigação de amar-nos por nós e por todos nesta enseada onde bóia o grande barco agora chegado a nenhum cais. Não é lamento nem sofrimento – é apenas a constatação. Sei que me vês assim mesmo na noite. Cheguei com as mãos cheias de cravos. Ouvirás apenas o rumor silencioso deste perfume que sobe das pétalas de joelhos aos seus pés meu pequenino.

     Quereria lhe escrever esta carta de amor que não passará da noite noturna de nossas mãos unidas sobre estrelas mortas, vazios desertos, espaços sem mundos estelares, vácuo e silêncio, embora apenas se percebam os ruídos do outro lado. Do outro lado da parede. [i]

[i] Patrícia GALVÃO, Não tenha Medo do Escuro, Diário de São Paulo, 30/11/1947.

 

 


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