FLIP – Feira Literária Internacional de Paraty, começa hoje

Semana da realização da Flip – Feira Literária Internacional, em Paraty e diante desse momento pensamos nos grandes nomes da literatura nacional, entre eles o de Patricia Galvão, a Pagu.

Em 2010, a escritora Lúcia Maria Teixeira falou sobre Pagu na programação oficial desta Feira Literária Internacional, ressaltando a sua vida e obra, com apresentações multimidia. O livro Viva Pagu, de autoria de Lúcia e Geraldo Galvão Ferraz, que homenageia os 100 anos de Pagu, indicado ao Prêmio Jabuti, foi também destaque na programação da Flip.

Lúcia celebrou a Pagu escritora, jornalista, mulher precursora e ativista cultural e política, ressaltando que:

“Nunca foram tão necessários seus sonhos de mundos imaginados que nos abrem caminhos, nos movem, dando razões para desejar e buscar realidades melhores que as atuais.

Ela ainda tem muito a nos dizer. Uma fala que busca raízes no terreno incerto e perigoso dos atos, das práticas, da existência, sempre como síntese imperfeita. E, assim, nos faz companhia na luta, crença, valores, paixão, desejo e emoção.

A história continua, portanto, aberta a novas propostas e ao fazer junto, em seu não acabamento essencial. Nossa antropófaga, um ser-em-mutação, mutação-em-ser, venceu a morte, ou melhor, deglutiu-a. Conquistou a sobrevida por meio de seus sonhos, ideias, afetividade e desejos, que são, afinal, o que nos dá condições de existência. “É a vida que flui, a arte que permanece, e entre o que passa e o que fica, os homens traçam a sua grandeza e a sua dignidade” – Lucia Teixeira.

Hoje trataremos o texto mais famoso de Pagu – PARQUE INDUSTRIAL.

Publicado em 1933, quando Patrícia Galvão, contava com apenas 23 anos de idade. Esse texto foi lançado, por injunção do Partido Comunista Brasileiro no qual a autora militava sob o pseudônimo de MARA LOBO.

Motivo: o Partido a julgava muito intelectual por essa atividade de escritora e, naquela época, só eram valorizadas nesse partido as atividades braçais. Essa edição limitada foi paga por Oswald de Andrade, com quem Pagu era então casada.

Em 1981, a editora Alternativa lança uma edição fac-similar do texto, embora alterando a capa, que originalmente era de Lívio Abramo e nesta edição é de Cláudio Rocha. A edição tem prefácio de Geraldo Galvão Ferraz, o filho de Pagu com o escritor, jornalista, crítico de artes plásticas, urbanismo e arquitetura, Geraldo Ferraz, e finalmente ganha o verdadeiro nome de sua autora – Patricia Galvão – Pagu. É então a vez desse texto, preocupado com a classe proletária brasileira, aqui mostrada através das tecelãs das fábricas do Brás, onde Pagu morou em certa época, deixando de lado a família aristocrática, deixa de ser comunista para se provar universalmente humano.

Em 1993, numa impressão da University of Nebrasca , em tradução de Elizabeth e David Kenneth Jackson, Pagu mais uma vez rompe fronteiras. Parque Industrial – o Primeiro Romance Proletário Brasileiro – ganha o mundo e aterriza nos Estados Unidos da América pelas mãos dos professores doutores Elizabeth e K. David Jackson, estudiosos da literatura brasileira.

 

 

 

Anos depois, em 2013, ainda uma vez era hora do Brasil homenagear essa escritora, feminista avant la lettre, jornalista, tradutora, apaixonada pela literatura e o teatro, que traduziu e trouxe para o Brasil autores de toda Europa e aqui descobriu profissionais da estatura de Plínio Marcos. E, finalmente a escritora, sempre preocupada com o humano, que escreveu o primeiro romance proletário brasileiro, viu definitivamente reunidos seu nome e a capa original de sua obra, em um desenho realizado por Lívio Abramo. Pagu não poderia ser esquecida, então a editora Cintra publica na versão digital, em e-book, o Parque Industrial.

Porém, Pagu, com sua preocupação humanitária e feminista, com seu texto precioso, não se prende a territórios e, uma vez transposta a fronteira das Américas com seu voo para os Estados Unidos, seu PARQUE INDUSTRIAL, o primeiro romance proletário, no mesmo ano de 2013, ganha a Europa em tradução de Elena Bulic, desta vez aterrizando na Croácia. O povo croata, tão sofrido, recebe o livro como um presente dessa tradutora, uma estudiosa brasilianista que descobriu o livro em uma feira literária na Itália.

Assim, rompendo fronteiras entre intelectuais e um povo sofrido e sem voz, Pagu segue sua trajetória humanitária e literária e, ainda em 2013, o PARQUE INDUSTRIAL ganha sua edição em e-book, em espanhol, pela editora Cintra, em tradução do professor Dr. Martim Camps, brasilialista, autor/tradutor mexicano que trabalha na Universidade de Houston, e acreditou nessa obra de Pagu por conhecer as nefastas condições de trabalho das tecelãs no norte de seu país, o México. Posteriormente, o professor Martim Camps lança, em uma edição do próprio tradutor, esse texto em versão impressa.

Finalmente, em 2015, o Parque Industrial de Pagu volta à Europa pelas mãos do tradutor Antoine Chareyre e é publicada pela editora Le Temps des Cerises, com prólogo de Liliane Giraudon e boa aceitação naquele país, que dedica vários artigos elogiosos ao texto. Ignorante dos problemas dos tecelões brasileiros na época da industrialização, mesmo assim, a França reconhece a qualidade do texto de Pagu e o aplaude.  Para o próximo ano de 2019 está contratada a publicação de Paixão Pagu- autobiografia precoce de Pagu, pela mesma editora e o mesmo tradutor.

 

No início de 2018, a editora Linha a Linha, que “nasceu das inquietações com o mundo e com o objeto-livro”, como dizem seus editores, reconhece, abriga e publica o PARQUE INDUSTRIAL dessa Pagu inquieta com o mundo, com os livros, inquieta com a humanidade! Nessa publicação temos uma versão criteriosa, com prefácio de Augusto de Campos autor, entre outros livros, de Pagu-Vida-Obra, em primeira edição pela editora Brasiliense e em segunda edição de 2014 pela Companhia das Letras, e artigos-estudos de Kenneth David Jackson (A Dialética Negativa de Parque Industrial) o tradutor dessa obra para o inglês, como já apontado e notas explicativas, necessárias tantos anos passados da primeira publicação, assim como artigos críticos de Antoine Chareyre – tradutor da obra para o francês. O lançamento do Parque Industrial em português, dessa vez se deu no espaço Tapera Taperá, que fica na Galeria Metrópole em São Paulo e contou com a fala de estudiosos de Pagu, numa simpática reunião.

 


Pagu nas artes sonoras – escolas de samba, blocos e músicas

Em 2000 Rita Lee lança no seu álbum intitulado 3001, PAGU,  uma música quase tão irreverente quanto a musa, cuja letra, que  segue aqui copiada remonta à mulher Pagu politica dos palanques, feminista antes de seu tempo-

Essa música que faz parte das seis músicas feministas de Rita Lee, fez tremendo sucesso e ainda faz, porque o mito PAGU está mais vivo do que nunca, tanto que a música foi regravada em vários discos de Rita Lee, e apresentada em palco diversas vezes por artistas da importância de Zélia Duncan, que a cantou em show ao lado de Rita Lee e Maria Rita.

Segue abaixo a letra completa:

Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira
Sabe o que é ser carvão
Hum! Hum!

Eu sou pau pra toda obra
Deus dá asas à minha cobra
Hum! Hum! Hum! Hum!
Minha força não é bruta
Não sou freira, nem sou puta

Porque nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem

Nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem

Ratatá! Ratatá! Ratatá!
Taratá! Taratá!

Sou rainha do meu tanque
Sou Pagu indignada no palanque
Hanhan! Ah! Hanran!
Fama de porra louca, tudo bem!
Minha mãe é Maria ninguém
Hanhan! Ah! Hanran!

Não sou atriz, modelo, dançarina
Meu buraco é mais em cima

Porque nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem

Nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem

Nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem

Ratatá! Ratatatá
Hiii! Ratatá
Taratá! Taratá!

Compositores: Rita Lee Jones Carvalho / Zelia Cristina Goncalves Moreira

Letra de Pagu © Warner/Chappell Music, Inc
Rita Lee

Data de lançamento- 2000 pela MTV no álbum 3001

Pagu – Rita Lee

Pagu – Maria Rita

Além dessas gravações, Rita Lee regravou várias vezes a música, em vários álbuns, como em Cobra Venenosa e Cor de Rosa Choque, cuja capa e link reproduzimos a seguir:

Homenagem Escola de Samba X9, em Santos

Pagu foi samba enredo pela Escola de Samba X9, em Santos, no ano de 2006. Desenvolvido pelo carnavalesco Renato Di Renzo, na época, professor da Faculdade de Artes e Comunicação da UNISANTA, o enredo teve como base a biografia de Pagu, escrita por Lúcia Maria Teixeira Furlani, e mostrou o período glamouroso em que Patrícia Galvão surge no Modernismo, por intermédio do escritor Oswald de Andrade e da artista plástica Tarsila do Amaral. Tarsila e Oswald formavam o casal mais badalado e admirado da alta sociedade paulistana e orientaram a carreira de Pagu. Nesse período, Oswald vive um caso de amor com Pagu e deixa Tarsila.

A escola também levou para avenida a Pagu como introdutora da soja no Brasil, sua militância política (foi a primeira mulher presa no Brasil por motivos políticos, na greve dos estivadores, em Santos), sua contribuição ao teatro amador, além de citar o Bar Regina, que Pagu freqüentava, reduto de intelectuais e da boemia santista nos anos 50.

Bloco Pagu faz carnaval de rua empoderado no Centro de São Paulo

“O Pagu é um dos blocos paulistanos que aposta na união e na resistência feminina. Leva às ruas da capital paulista uma coleção de músicas que se tornaram famosas pela interpretação de mulheres e conta com o apoio de 80 percussionistas . Para a trilha sonora deste ano de 2018 dos foliões foram escolhidos os clássicos eternizados por Marina Lima, Gal Costa, Elba Ramalho, Tetê Espíndola, Rita Lee e até Madonna”, é definido nas palavras de Thereza Menezes, sua fundadora.

O bloco aceita a participação de homens e traz uma figura estilizada de Pagu como seu logo.


Pagu no teatro, como personagem, criadora, diretora e tradutora de peças que apresentaram autores europeus aos brasileiros

Em 1952 Pagu frequentou a EAD- Escola de Arte Dramática dirigida por Alfredo Mesquita de quem se tornou muito amiga.

Anos depois, em 1958, tendo ao lado Paschoal Carlos Magno, grande figura do teatro brasileiro, Pagu cria o FESTA- Festival de Teatro Amador de Santos, possivelmente o mais antigo festival de teatro do Brasil. Nessa empreitada Pagu atuou como tradutora- trouxe para o conhecimento dos brasileiros autores como Antonin Artaud, Eugène Ionesco de quem traduziu e encenou A CANTORA CARECA e Fernando Arrabal, de quem traduziu e encenou FANDO E LIS que trazia em seu elenco, entre outros o jovem Plínio Marcos, em cujo talento ela acreditava depois de ter lido Barrela, peça escrita por ele mais tarde sucesso no teatro brasileiro.

Décadas depois, entretanto, Pagu se tornou personagem de várias peças, a primeira delas em 2004- PAGU QUE- tendo Christiane Tricerri como atriz e diretora com estréia no SESC Belenzinho e em encenações diversas por várias casas de teatro do país.
Nessa peça, cujo título é baseado em uma das poesias de Pagu, Tricerri narra importantes trechos de uma Pagu amargurada, já perto do final de sua vida .

Já PAGU PRA QUE, é peça baseada na tese de mestrado de Tereza Freire -DOS ESCOMBROS DE PAGU-, que em 2010 subiu ao palco do teatro Eva Hertz no espaço da Livraria Cultura contando, além da autora Tereza Freire com a direção de Roberto Lange e a atriz Renata Zhaneta num emocionante monólogo que revisita a vida da escritor mãe, jornalista, tradutora, primeira presa politica do país na ditadura do governo de Getúlio Vargas.
Em 2017 Gleice Ucha encena novamente essa peça-monólogo em vários teatros do País.

Finalmente em 2015 é encenada a peça DIÁRIO DE UMA REVOLUCIONÁRIA , no espaço da Companhia do Feijão, desta vez baseada no livro PAIXÃO PAGU, autobiografia precoce de Patricia Galvão, escrito quando ela tinha apenas 32 anos em forma de uma longa carta da prisão para Geraldo Ferraz, que viria a ser seu segundo marido.
Nessa encenação a direção é de Pedro Pires e coloca em cena várias atrizes como Inês Soares Martins, Mila Fogaça, Natália Xavier, Thais Podestà e Vanessa Garcia, todas representando Pagu em diversos momentos e movimentos de sua vida.aterial de teatro para a EAD de Alfredo Mesquita e hoje, com a m
orte de Mesquita, todo esse material se encontra na ECA da USP.

Em 1962, pouco antes de sua viagem para a França,para tentar continuar sua luta contra um câncer nos pulmões, Pagu entregou todo seu material de teatro para a Escola de Arte Dramática- ( EAD ) de Alfredo Mesquita e posteriormente, com a morte de Mesquita, todo esse material foi entregue para a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP juntamente com todo o material da própria EAD.

No teatro é isso, mas acredito que seria bacana já colocar a noticia de que no último sábado foi lançado no espaço cultural Tapera Taperá, a versão impressa do livro Parque Industrial pelo editorial Linha a Linha, uma versão crítica com artigos de Augusto de Campos, e os tradutores/estudiosos David Jackson (o tradutor para os EUA) e Antoine Chareyre) (tradutor para a França). Esse livro estava há décadas fora do mercado impresso, tendo apenas uma versão digital pela editora Cintra.


Pagu – Patrícia Galvão: livre na imaginação, no espaço e no tempo

Sinopse
Narra a trajetória da vida de Pagu, Patrícia Galvão (1910-1962) que teve destacada atuação no cenário político e cultural brasileiro. A Pagu ousada, polêmica, musa de rara beleza e glamour, participante do Modernismo, em sua fase mais revolucionária, a Antropofagia, militante do Partido Comunista Brasileiro e depois dissidente e crítica do mesmo partido, a primeira mulher presa no Brasil por motivos políticos, torturada e perseguida. Romancista, poeta, jornalista, inovadora, sempre salientando a vanguarda, crítica de letras, artes, televisão e teatro, introdutora das primeiras sementes de soja trazidas e plantadas no Brasil, vindas da China, a incentivadora da cultura e do teatro, a mulher precursora.

21 minutos de emoção mostram 52 anos de vida de Pagu por meio de fotos e documentários, constituindo-se em filme obrigatório para todos os que se interessam pelos destinos do País e do mundo.

Baseado no livro Pagu – Livre na Imaginação no espaço e no Tempo, de Lúcia Maria Teixeira, Editora Unisanta.

Apresenta desenhos de PAGU, inclusive inéditos de seu CADERNO DE CROQUIS, e de FEDERICO GARCIA LORCA.

FICHA TÉCNICA – curta-metragem
PAGU LIVRE NA IMAGINAÇÃO, NO ESPAÇO E NO TEMPO
Realização e roteiro:
Lúcia Maria Teixeira
baseado no livro homônimo de sua autoria
Direção:
Rudá de Andrade e Marcello Tassara
Colaboração:
SISTEMA SANTA CECÍLIA DE RÁDIO E TV EDUCATIVAS
PRODUÇÃO UNISANTA
Realizado no
Midialab br/projeto FAPESP 2001
Curta-metragem – 21 minutos
PRÊMIO EXU JORGE AMADO
28ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia 2001


Eternamente Pagu

Por Daniela Nakamura
Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

Insatisfação, rebeldia, inovação. Palavras que ajudam a definir o comportamento da escritora, jornalista e ativista política Patrícia Rehder Galvão, que usou o apelido Pagu, dado pelo poeta Raul Bopp, como um nome de guerra. Suas atitudes atrevidas já preocupavam seus pais, ricos e conservadores, desde quando estudava na escola normalista, em São Paulo. A alma provocadora ganha força quando é apresentada aos modernistas do movimento de 1922, como Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Tinha pouco mais de vinte anos na época.

Eternamente Pagu mostra a trajetória de luta, talento e insatisfação dessa mulher visionária, indignada com os abusos do governo de Getúlio Vargas, com a exploração do proletariado e com a hipocrisia da burguesia brasileira. O filme, apesar de mostrar o talento literário de Pagu (Carla Camurati), e de ser permeado com seus versos e frases junto à trilha sonora, destaca mais a sua militância política – a participação em comícios e greves; o sofrimento durante as prisões e as viagens pelo mundo.

Pagu e Oswald de Andrade (Antônio Fagundes) se apaixonam, mas mantêm uma relação secreta, já que o poeta era casado com a pintora Tarsila do Amaral. Em 1930, os dois se casam, oficializam a todos a relação e têm um filho, Rudá. A separação foi um escândalo para a época. Pagu, numa viagem a Buenos Aires, conhece e entrevista “o cavaleiro da Esperança”, Luis Carlos Prestes, com quem sempre sonhava e de quem comentava com sua irmã, Sidéria (Nina de Pádua).

Oswald e Pagu, já filiados ao Partido Comunista, fundam o jornal O homem do povo, onde apontam a submissão e apatia das mulheres da burguesia, a exploração dos proletários e criticam os estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, reduto da burguesia, segundo eles, atrasada e hipócrita. A primeira prisão de Pagu retratada no filme acontece após sua participação em uma greve de estivadores (organizadores de cargas para embarque e desembarque nos portos) em Santos. Fora capturada pela polícia política de Getúlio Vargas.

Em 1935, Pagu foi presa novamente por ser comunista estrangeira, com identidade falsa. Consegue ser repatriada ao Brasil, mas ainda seria presa por relações com o Partido Comunista, e castigada por sua insubordinação às autoridades. No filme, um dos exemplos dessa desobediência ao poder instituído se dá quando o interventor federal Ademar Pereira de Barros, nomeado por Getúlio Vargas, visita a cadeia onde Pagu estava presa, e ao contrário do que fora ordenado pelos agentes prisionais, ela se nega a cumprimentá-lo.

Somente em 1940 consegue a liberdade, depois de quase morrer nas prisões. Nesse tempo em que é torturada, seu filho Ruda é criado por Oswald. Pagu então se desfilia do Partido Comunista e passa a defender o socialismo da linha de Leon Trotsky. O amor de Oswald e Pagu não foi capaz de resistir ao vai-e-vem das prisões, e Pagu acaba se casando com o jornalista Geraldo Ferraz (Otávio Augusto), que lhe possibilita que retome o seu trabalho e com quem fica até o fim dos seus dias. Com Geraldo, tem seu segundo filho, que fica com o mesmo nome do pai. Desesperada e decepcionada por estar doente dos pulmões, com limitações de viver a vida como uma aventura e de modo incerto, como sempre fez, Pagu tenta o suicídio, mas sobrevive. Sobre o caso, o filme traz as próprias palavras da escritora: “Uma bala ficou para trás, entre gazes e lembranças estraçalhadas”.

O filme é importante não só para saber quem foi Pagu, mas principalmente para entender um pouco do clima da época em que artistas tentavam conhecer melhor o país, criticando seus atrasos em meio à ditadura do Estado Novo, e denunciando a imitação cultural e os excessos na linguagem. Mostra-se ainda como um exemplo atual, de enfrentamento de abusos políticos, da irreverência e da luta por ideais. Eternamente Pagu foi indicado na categoria de Melhor Filme no Festival de Gramado de 1988 e venceu nas categorias de Melhor Atriz, com Carla Camurati e de Melhor Trilha Sonora.

FICHA TÉCNICA
Título original: Eternamente Pagu
Produção: Brasil, 1987
Direção: Norma Bengell
Duração: 101 min
Roteirista: Márcia de Almeida, Geraldo Carneiro, Norma Bengell
Trilha: Turíbio Santos, Roberto Gnatalli
Elenco: Carla Camurati, Antônio Fagundes, Esther Goés, Nina de Pádua, Otávio Augusto


Trata-se de EH Pagu, Eh! de Ivo Branco

Filme de 1982, curta metragem, conta um pouco da trajetória de Patricia Galvão, a Pagu, musa da segunda dentição da Antropofagia,casada com Oswald de Andrade com quem teve o filho Rudá de Andrade, tradutora e jornalista na France Press, secretária de O Homem do Povo e A Mulher do Povo, que mantinha com Oswald de Andrade.

Criou também o jornal Vanguarda Socialista com Geraldo Ferraz e Mario Pedrosa. e trabalhou ainda em jornais como A Tribuna de Santos, onde colaborou com seu segundo marido Geraldo Ferraz, com quem teve o filho Geraldo Galvão Ferraz, o Kiko Ferraz. Presa na ditadura de Getulio Vargas por ser do PCB, Pagu permaneceu na cadeia por 5 anos e foi barbaramente torturada , sendo a primeira presa politica do Brasil.

O filme conta com a participação de Edith Siqueira como Pagu, além de fotos de época mostrando personagens como Luis Carlos Prestes, importante na trajetória de Pagu, pequenos trechos de suas falas, alguns de seus escritos e croquis e fotos de Pagu além de fotos familiares desde pequena até seus dois casamentos.

FICHA TÉCNICA
País: Brasil
Duração: 15′
Diretor: Ivo Branco
Produtor: Rebeca Mc Mello
Ano: 1982
TEMA: Biografia
Formato: HD
Montagem: Francisco Magaldi
Som Direto: Guga Bandeira
Fotografia: José Roberto Sadek
Pesquisas Fotográficas: Ivo Branco, Paulo Cesar DE Azevedo, Vladimir Sacheta
Prêmios:
Melhor Curta no Festival de Brasília 1982, Melhor Roteiro de Curta no Festival de Brasília 1982, Prêmio Estímulo da Secretaria de Estado da Cultura/SP 1982
Tags: antropofagia, ditadura, pcb
Esse filme também pode ser visto em curtadoc.tv


Crônica Não tenha Medo do Escuro de Patrícia Galvão – Pagu

A crônica Não tenha Medo do Escuro, é uma carta de amor ao filho Rudá, que marca o encontro de ambos, após muitos anos separados.

      Vão aqui os dedos ao encontro da parede, dos cabelos amados, do sorriso que não vejo, ó lua negra na noite destrelada, passos que vêm agora, que vão, palavras em língua estranha me servem chá preto, pão preto, arroz preto, verduras pretas. E a noite noturna vagando este coração todo escaninho aberto às brisas punhais da lembrança, do azul, do amarelo, do branco, daquela rede trançada, os quadros muito amados, a paisagem, a velha parede, as folhas. Nenhuma lágrima a não ser este amargo canto negro que sobe na noite e vem servir de berceuse, sentimento abstrato de que me sirvo para me lembrar muitas vezes de meus olhos…

**

Quereria lhe escrever Rudá nestas linhas a minha carta de amor da noite em que estamos perdidamente clandestinos no barco imenso que bóia sobre as águas do mundo tomado de dilúvio. Rios correm pelos sulcos de todos os países, bichinhos humanos pequeninos sem mãos adultas puxando seus passos infantes, e nós com a obrigação de amar-nos por nós e por todos nesta enseada onde bóia o grande barco agora chegado a nenhum cais. Não é lamento nem sofrimento – é apenas a constatação. Sei que me vês assim mesmo na noite. Cheguei com as mãos cheias de cravos. Ouvirás apenas o rumor silencioso deste perfume que sobe das pétalas de joelhos aos seus pés meu pequenino.

     Quereria lhe escrever esta carta de amor que não passará da noite noturna de nossas mãos unidas sobre estrelas mortas, vazios desertos, espaços sem mundos estelares, vácuo e silêncio, embora apenas se percebam os ruídos do outro lado. Do outro lado da parede. [i]

[i] Patrícia GALVÃO, Não tenha Medo do Escuro, Diário de São Paulo, 30/11/1947.

 

 


Lucia Teixeira fala para Record sobre Pagu e os Modernistas

Foi exibida no último sábado, (3/2), pela Record uma reportagem sobre os 96 anos da Semana de Arte Moderna de 1922, que marcou o início do Movimento Modernista no Brasil. A biógrafa de Patrícia Galvão (Pagu) e presidente da Unsisanta, Lúcia Teixeira, conversou com a equipe sobre a influência da jornalista e militante política e cultural entre os modernistas em sua segunda fase, o Movimento Antropofágico.

Confira a entrevista na íntegra:


Livro Viva Pagu é destaque em reportagem da TV Tribuna

O evento Viva Pagu – Feira das Minas foi inspirado no livro da biógrafa de Pagu e presidente da Unisanta, Lúcia Teixeira.

Como forma de divulgar e estimular o empoderamento feminino, a edição do Jornal A Tribuna 1ª Edição, da TV Tribuna, emissora filiada à Rede Globo, desta última segunda-feira, 5/11, exibiu a reportagem sobre o evento Viva Pagu – Feira das Minas, com a entrevista da presidente da Universidade Santa Cecília (Unisanta) e biógrafa de Patrícia Galvão (Pagu), Lúcia Teixeira.

A escritora prestigiou o evento que aconteceu no último sábado, 3/11, e ganhou esse nome por inspiração em seu livro Viva Pagu – Fotobiografia de Patrícia Galvão. “O Livro Viva Pagu, que marcou o Centenário de Pagu, deu origem a várias iniciativas, fico muito feliz que é o nome desse seja evento também!”, falou Lúcia para os jornalistas.

Na oportunidade, os participantes da Feira puderam adquirir o livro, cujo preço é R$ 90,00, por R$ 45,00, em prol das atividades promovidas pelo Instituto Neo Mama, pois a renda arrecada com a venda do livro foi doado ao projeto.

Viva Pagu aborda, em 348 páginas, ricamente ilustradas, a vida e a obra de Patrícia Galvão (1910-1962), jornalista, militante política, incentivadora da cultura e mulher precursora.

Exibição do documentário Viva Pagu – Na programação da Feira, no Museu da Imagem de Som de Santos – MISS foi exibido o documentário Viva Pagu, também baseado na Fotobiografia de Lúcia Teixeira. Desenvolvido pelos profissionais do Espaço Unisanta, com a direção da jornalista, Alessandra Pereira, o filme tem cerca de 13 minutos de duração.

A autora – Lúcia Maria Teixeira é Mestre e Doutora em Psicologia da Educação, autora também  de “Pagu – Livre na imaginação, no Espaço e no Tempo”, “Croquis de Pagu”, “A Claridade da Noite” e dos infantis “Tudo É Possível” e “O Segredo da Longa Vida”, entre outros. É presidente da Universidade Santa Cecília e presidente do Centro de Estudos Pagu Unisanta (CEP), em Santos.

Sobre o CEP – O Centro de Estudos Pagu Unisanta, em Santos, reúne ao redor de 3000 arquivos originais e digitalizados sobre Patrícia Galvão, a grande maioria inéditos. Colabora assim para difundir para todo o país essa memória, da qual é o depositário.

O Centro foi fundado em 2005 pela escritora e pesquisadora Lúcia Maria Teixeira. Constitui-se de material resultante de pesquisa por ela iniciada em 1988, a partir de seu primeiro livro sobre Pagu, “Patrícia Galvão – livre na imaginação no espaço e no tempo” (Editora Unisanta, 1988), transformado depois em filme, em 2001, ganhador do prêmio Exu Jorge Amado, da Jornada Internacional de Cinema da Bahia (sob a direção de Rudá de Andrade e Marcelo Tassara), ao qual se seguiram obras como “Croquis de Pagu – e outros momentos felizes que foram devorados reunidos” (Unisanta/Cortez Editoras, 2004), que culminaram com a organização do maior arquivo existente no Brasil sobre Patrícia Galvão, o Centro de Estudos Pagu Unisanta.

Clique aqui e confira a reportagem.

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Documentário sobre Pagu conta com a pesquisa de Lúcia Teixeira

A biógrafa de Patrícia Galvão, a Pagu, e presidente do Centro de Estudos Pagu Unisanta (CEP), Lúcia Teixeira, concedeu entrevista na manhã da última quarta-feira, 8/04, para o grupo denominado “Berenice Filmes”, formado por alunos de Cinema e Audiovisual.

A entrevista de Lúcia e as pesquisas do grupo no CEP farão parte do documentário “As estações de Pagu”, que será apresentado em junho deste ano, como trabalho de conclusão de semestre e tem o objetivo de contar a história da vida pessoal de Patrícia Galvão.

“É muito gratificante receber jovens tão interessados e preparados para conversar sobre Pagu. O seu legado ainda é muito atual e nos faz refletir sobre muitos aspectos sociais e políticos em que vivemos até hoje. Ver o trabalho que desenvolvemos no CEP rendendo frutos e chegando até os estudantes e pesquisadores de todo Brasil mostra que estamos conquistando do nosso objetivo, que é de levar o nome desta mulher percursora a todos”, disse a biógrafa.

O documentário mostrará que Pagu por meio de suas poesias expressa sua própria subjetividade em diferentes momentos de sua vida, desde sua adolescência até seus últimos anos de vida, criando uma relação metafórica com as características das estações do ano: primavera, verão, outono e inverno. Ao mesmo tempo em que enfatiza a ligação de Pagu com Santos, cidade que um dia foi seu “refúgio”.

Com linguagem poética e imagens conceituais o documentário exibe as fases da vida de Patrícia Galvão, desde a estação primavera, fase de sua vida em que escrevia poesias alegres, quentes e sem ressentimentos; Até o inverno, estação em que se tornou uma pessoa cheia de arrependimentos e principalmente imersa em sua fria solidão.

Centro de Estudos Pagu Unisanta – Localizado em Santos, na Unisanta, reúne cerca de três mil arquivos originais e digitalizados sobre Patrícia Galvão, a grande maioria inédita. Colabora assim para difundir para todo o País essa memória, da qual é o depositário. Fruto da pesquisa de Lúcia, muitos outros trabalhos – teses, livros, exposições, peças de trabalho, audiovisuais – foram produzidos a partir do seu incentivo e do Centro Pagu Unisanta.